domingo, 22 de fevereiro de 2015
O Enigma de Carpenter
O Enigma do Outro Mundo
John Carpenter's The Thing, 1982
Dir. John Carpenter
Os primeiros filmes de Carpenter como "Fuga de Nova York", "Halloween" e "Assalto ao 13º Distrito" foram produções relativamente baratas que tiveram boas bilheterias com histórias intrigantes, originais e levemente inverossímeis.
Graças a esses sucessos anteriores, Carpenter conseguiu um contrato com a Universal para refilmar "The Thing From Another World", terror cult de 1951. O filme original contava a história de uma equipe de cientistas no Ártico assombrada por um ser de outro planeta. A Universal esperava um sucesso como de "Alien", produzido poucos anos antes com tema similar. Infelizmente o filme não foi tão bem nas bilheterias, entre outros motivos porque 1982 foi o ano que E.T. atingiu as telas e fez história. Ou seja, era um ano difícil para outro filme com alienígenas conquistar o público. Outro motivo, apontado por críticos, era que o filme de Carpenter não possuía o terror delicado, sugestivo e elegante que sobrava no "Alien" desenhado por H. R. Giger. "O Enigma do Outro Mundo" era radical e exagerado demais, extremo na violência e nos efeitos visuais. Demorou algum tempo para que a proposta de Carpenter de fazer um terror tão gráfico fosse compreendida. Hoje, existe uma legião que defende as qualidades do filme.
Realmente "O Enigma do Outro Mundo" não é um filme de sugestão e sutilezas. É um pesadelo. Cruel, visualmente horripilante, mas muito, muito divertido
Um grupo de cientistas de uma estação de pesquisa na Antártida encontra uma nave alienígena enterrada há 100 mil anos. Os exploradores percebem com certo atraso que um dos cachorros já não é mais um cachorro e sim uma criatura alienígena disfarçada. Os cientistas entendem que um ou mais membros da equipe também podem ser alienígenas. Então, instaura-se uma paranoia coletiva na busca por descobrir quem não é mais humano. O clima de desconfiança e as cenas em que a criatura se revela parecem saídas de um horrível pesadelo. Não existe parâmetro para compará-las. A criatura não se parece com um bicho e as formas que ela encontra de matar são inéditas, ninguém pode dizer que já viu em outro filme. Carpenter não tem pudor em mostrar os ataques. O filme é muito divertido na mesma medida em que é horripilante. Os produtores do filme soltaram seus demônios e os colocaram sob os holofotes. Essa coragem em ser exagerado faz com que o filme às vezes se torne cômico. É como quando temos um ataque de riso diante de uma situação absurdamente caótica, como a engraçadíssima cena do teste de sangue. Claro que o humor não é para todos.
No DVD é possível ouvir comentários de Carpenter e Kurt Russel rindo com o filme. Pela conversa entendemos que "Enigma" é um grande bang-bang de garotos crescidos. Nenhum aspecto do filme é mais impressionante e original que o desfecho. Carpenter diz que dirigiu um final feliz alternativo para os produtores, mas que todos se convenceram que a conversa niilista que encerra o filme era a única possível para o pesadelo que ele criou. A opcão por esse final nos faz entender um pouco por que Carpenter nunca conseguiu ser totalmente assimilado pelos grandes estúdios. A maioria dos filmes de terror evita a ambiguidade que essa última cena sugere.
Para mim, quando John Carpenter dirigia um desses grandes filmes nunca se preocupou muito com a aclamação da crítica ou do público, mas em entregar histórias originais em que ele seja o autor, independente do gênero. Carpenter conseguiu deixar o mundo mais divertido.
PS. Drew Struzan, artista famoso por desenhar os pôsteres de Indiana Jones e Guerra nas Estrelas fez o pôster de "Enigma" por encomenda, sem ter assistido ao filme. Na minha opinião, é um de seus trabalhos mais incríveis. Não pela beleza técnica, mas pela expressividade da imagem.
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