quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

Filme imperfeito





Rastros do Ódio
The Searchers, 1956
Dir. John Ford

Assisti neste fim de semana ao filme na mostra que o Cinemark faz reapresentando clássicos nas suas salas de cinema em horários pouco populares. Já conferi Bonnie e Clyde e Os Caça-Fantasmas nessa mostra.

A última vez que assisti a "Rastros do Ódio" foi no vão livre do Masp no ano em que a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo homenageava o diretor. Lembro que estava empolgado que nem um garoto, chamei meu pai que era um grande fã de todos os filmes de Bang Bang feitos antes de Por um Punhado de Dólares. Fui à sessão no Masp com suspensórios e botas iguais as que John Wayne usa no filme. John Ford já tinha dirigido mais de uma centena de filmes quando entregou mais este filme passado no velho oeste. Muita gente acredita que este não só é um dos melhores filmes dele, como um dos melhores filmes já feitos.

Todas as vezes que vi o filme tive sérias dificuldades em aceitar e entender algumas partes. Ás vezes acho que as cenas do casamento são muito tolas, outras vezes não simpatizo com o garoto que acompanha Wayne. Nesta última vez achei o personagem de Natalie Wood muito confuso. Ela quer ser resgatada? Ela se vê como índia? Posso afirmar que todas as vezes que assisti ao filme nunca consegui engolir ele por inteiro. Sempre alguma parte ou personagem ficam um pouco enroscados na minha garganta. É como se eu sempre sentisse que existem coisas sobrando no filme genial que conta a história desse brutamontes atrás da sobrinha sequestrada por indígenas. No filme genial "puro" só existiria a interpretação de John Wayne, os cavalos e as paisagens filmadas por Ford como se o próprio Caravaggio tivesse servido de assistente de fotografia. O curioso é que o filme sempre é genial, mas as passagens que eu não acho tão geniais mudam de lugar. Dessa última vez acabei simpatizando com o garoto mestiço, adorei a pancadaria no casamento e não achei tão caricatos os índios, tirando o chefe Scar, cujos olhos azuis ainda me irritam.

Acho que o que acontece é que cada vez que vou assistir ao filme, Ford dá mais emoção a uma cena, edita diferente uma discussão, dá mais ou menos ênfase ao humor, carrega mais no drama. Ele deve estar sempre refazendo o filme logo que percebe que vou assisti-lo. Como um George Lucas do além, Ford remonta continuamente o filme para que eu nunca veja os mesmos defeitos.

No final, essas cenas que sujam a obra prima que eu gostaria que ele fosse me fazem voltar a ele. Sempre estou meio perdido dentro desse filme. Talvez como os próprios personagens. E quando estou completamente perdido, Ford, de repente, faz um movimento de câmera e vejo os batentes da porta e então percebo que ele nunca mudou o final. Que eu estava sendo enganado enquanto ele sempre esteve no comando, sabendo exatamente aonde queria que eu chegasse, de volta para dentro da casa. De repente, estou de volta. Não estou mais perdido. Sou um garoto. Reencontro meu lugar no filme e no mundo. Estou de volta.


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