segunda-feira, 9 de setembro de 2013

MUNDO PERDIDO


The Lost World: Jurassic Park (1997)

"O Mundo Perdido" é o lado B de "Jurassic Park". Tudo aqui parece invertido em relação ao primeiro. Impossível seria capturar a magia do primeiro filme. "Jurassic Park" é responsável por um encantamento único, inédito, que não poderia ser alcançado por uma continuação. Nos parece que quem fez o filme sabia disso e não tentou refazer o primeiro filme enxertando mais do mesmo, como é típico no cinema. Fizeram um filme que  é o negativo do primeiro. Se no primeiro temos cores alegres, florestas de verde claro, carros e gadgets que parecem mesmo saídos de um parque de diversão, aqui temos cores sombrias, mata serrada, e locais de abrigo mal iluminados. A trilha de John Williams emprega muita percussão, o que remete a filmes de safari, sons tribais. A fotografia de Janusz Kaminski mal ajuda a ver o que se esconde nas árvores. É como um pesadelo em que tudo está fora do controle. 

Sabiamente, escolheram como herói o personagem mais sombrio do primeiro filme, Ian Malcom (Jeff Goldblum). O humor dele é amargo e a maioria das piadas (de diálogo e visuais) não é saborosa como no primeiro filme. A violência carrega humor negro, como na cena que o sujeito morre ao ir urinar, ou quando outro é esmagado por uma pata de dinossauro. Curioso que o humor parece mais vivo que o do filme anterior. Os diálogos são mais vivos e menos caricatos. O personagem mais detestável, e para quem o roteiro guarda uma deliciosa reviravolta, é o do caçador (Pete Postlethwaite). Suas frases são de uma secura que falta completamente ao primeiro filme e dão o tom para toda crueldade empregada neste segundo. Em certa cena ele diz, "Já estive em safáris demais com dentistas ricos para ter que aguentar mais uma ideia suicida, ok?"

Não existe nenhum ideal como no primeiro filme. A ideia da construção de um parque parece horrível desde o começo, a relação de Ian com sua filha é amarga ("Você gosta de fazer filhos mas não de criá-los", diz ela durante uma discussão), as mortes acontecem aos montes. Mesmo assim, as cenas de ação são elaboradas e divertidas.

"O Mundo Perdido" é uma continuação dirigida com uma seriedade que encontramos em "Aliens" de James Cameron. Uma continuação feita com imaginação e empenho. Meu único desapontamento com o filme é que ele não termine com a imagem do Tiranossauro urrando após atravessar o porto, com a silhueta da cidade de San Diego ao fundo. É uma imagem que representa bem o clima de pesadelo do filme. Teria sido aterrorizante ser mandado para fora do cinema com esta imagem gravada na memória ao invés do final apaziguador que o filme tem.





Cena deletada do filme que introduz o personagem de Pete Postlethwaite

sábado, 7 de setembro de 2013

NÃO POUPEI DESPESAS



JURASSIC PARK (1993)

Dr. Grant, paleontólogo experiente interpretado por Sam Neil, na primeira vez que vê um braquiossauro vivo na ilha vira para o dono do parque e diz - Uh.. uh... é um dinossauro! É a mesma frase que qualquer criança soltaria.

É este tipo de diversão que o filme nos traz. Voltamos a ser crianças e acreditar que dinossauros moram numa ilha distante. Voltamos a ser encantados e iludidos pelas imagens e pela música essencial de John Williams. O filme é uma versão com adultos de "Querida Encolhi as Crianças". Correria e fantasia. Os efeitos visuais são incríveis e os dinos verossímeis mesmo vinte anos de tecnologia depois. Spielberg e a equipe de efeitos certamente não pouparam despesas aqui

Mas mesmo assim, o que faz deste filme único e ainda hoje um marco ser superado no cinema-pipoca, é que ele foi escrito e pensado não como um filme de ação, mas como uma comédia

Apesar da emoção toda que temos com a ação e correria, a diversão existe porque em cada fresta de filme, Spielberg e seus roteiristas injetaram piadinhas, sacadas visuais, falas engraçadinhas, tudo para ser  uma comédia. Os diálogos parecem saídos de uma sitcom, com todos os personagens falando coisas engraçadinhas, ou às vezes, coisas propositalmente ridículas (como quando DR. Grant telefona para Hammond e diz - Hammond, os telefones estão funcionando!). No plano visual, o filme também é pensado como uma comédia física, as cores, as cenas de ação, como a do carro descendo a árvore enquanto Grant e Tim fogem pelos galhos, ou o braço de Arnold (Sam Jackson antes da fama) caindo sobre a Dra. Satler e causando nela um falso alívio. Tudo isso embalado numa edição elegantemente enxuta e esperta. Meu truque de edição favorito do filme é a cena em que Hammond pergunta onde pararam os carros de passeio e a próxima tomada é a cabra berrando, o que é a maneira inteligente de mostrar que eles estão na frente da jaula do Tiranossauro, e que sua situação de presa não difere muito da situação da cabra.

Assistir Jurassic Park nos faz lembrar porque gostamos de ir ao cinema. No fundo talvez eu tenha sido marcado eternamente pelo que acho do cinema a partir da experiência deste filme. Ainda acredito que os grandes filmes devem ter o poder de fazer rir, divertir e aterrorizar na mesma medida


Mapa impresso no livro de Michael Chrichton que deu origem ao filme



Making off de como foram feitos os velociraptors



segunda-feira, 2 de setembro de 2013

UM BOM FILME COM RUSSEL CROWE

MASTER AND COMMANDER (2003)

Assisti a este filme 3 vezes. A primeira vez, conclui que era um filme de belas cores mas que lhe faltava coração. Da última, percebi que o que eu esperava da primeira vez era uma aventura nos moldes de "Ilha do Tesouro", com personagens e falas transbordando de romantismo. Aquela sensação de aventura mais infatil. Isto não acontece neste filme. Ele é um filme de mar emocionante mas que não chega a ser caricatural como eu tanto queria. Só depois de 3 vezes comecei a identificar os personagens, a separar quem é quem. O filme não nos aproxima tão rápido destes marinheiros como um filme do Spielberg faria, por exemplo. Não temos vontade de nos lançarmos ao mar. Admiramos o barco, seu capitão e a beleza de uma cena de batalha. Mas este barco não é maior que qualquer outro, seu capitão não é o mais sábio ou bravo, nem a batalha é a última que lutaremos.

A maioria dos livros de aventura de garotos que vão para o mar começa com o rapaz em terra se encantando pela viagem. Este filme começa no mar e termina no mar. Não existe um encantamento pela viagem. Quase não sentimos a felicidade de uma vitória ao ver os mais jovens e bravos entre nós mortos e mutilados

Conseguimos ver um filme de dimensões grandiosas mas que para o bem ou para o mal não é caricatural.


CENA DE BATALHA DO FILME

PINTURA DE IVAN AIVAZOVSKY, 1846